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2,8°C: o que o alerta da ONU exige das empresas na gestão de emissões

O Emissions Gap Report 2026 aponta risco de aquecimento de 2,8°C se políticas atuais forem mantidas. Este artigo traz implicações práticas para empresas: do inventário à execução de um plano de descarbonização verificável.

7 min de leitura

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Resposta rápida

O Emissions Gap Report 2026 alerta para cenário de aquecimento de 2,8°C se as políticas atuais permanecerem. Para empresas, isso aumenta riscos físicos e de transição: medir emissões é necessário, mas a prioridade é executar planos de redução verificáveis com metas, orçamento e monitoramento independente.

Com o limite de 1,5°C fora de alcance sem ultrapassagem, o Emissions Gap Report 2026 desloca o debate das metas para a execução: medir emissões deixou de ser suficiente, e reduzi-las de forma verificável passa a ser a questão central.

Em 21 de outubro de 2026, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) publicou o Emissions Gap Report 2026: The Point of Return. A conclusão que mais circulou: se as políticas atuais forem mantidas, o aquecimento pode chegar a 2,8°C ao longo deste século e seguir subindo depois de 2100. O relatório também afirma que o limite de 1,5°C será ultrapassado; a discussão passa a ser por quanto tempo e em que magnitude.

Para quem gere uma empresa, o número é sinal de contexto: regulação, mercados, financiamento e riscos físicos serão moldados por um mundo que reduz emissões mais devagar do que o necessário. A pergunta que orienta este artigo é: diante da distância entre compromissos e reduções efetivas, o que as organizações podem fazer agora?

O que o número de 2,8°C significa (e o que não significa)

Os 2,8°C descrevem um cenário condicional, não uma previsão: é o aquecimento projetado se as políticas hoje em vigor forem mantidas. Se todas as Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) forem cumpridas e esforços semelhantes continuarem, o aquecimento fica em 2,6°C. Se, além disso, as metas de neutralidade líquida forem alcançadas, chega-se a cerca de 2,1°C, segundo a síntese do PBL, instituto holandês que participou da modelagem.

Dois recados completam o quadro. As projeções pioraram em relação às do ano passado, o que o PNUMA atribui à saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris e à revisão de estimativas históricas, com pouco efeito das novas NDCs. E o tempo tem custo físico: a cada cinco anos de emissões de CO₂ nos níveis atuais, o pico de aquecimento sobe cerca de 0,1°C.

A lacuna de emissões: da meta à implementação

O "gap" é a diferença entre o que os países prometem e o que a trajetória de retorno a 1,5°C exige. No cenário de menor ultrapassagem possível, com pico entre 1,7°C e 1,8°C e retorno a 1,5°C até 2100 com 50% de chance, o PNUMA calcula cortes globais de 18% até 2030, 45% até 2035 e 69% até 2040, em relação a 2025. A implementação integral das NDCs atuais entregaria apenas 5% a 8% até 2030 e 11% a 15% até 2035.

Anunciar uma meta, portanto, não equivale a reduzir emissões: a redução depende de políticas, investimento e execução. O mesmo vale para empresas. Um compromisso de neutralidade em 2050 sem trajetória intermediária, orçamento e responsáveis é um enunciado, não um plano.

O relatório também traz evidência de que a execução funciona. Desde o Acordo de Paris, a capacidade global de eletricidade renovável cresceu três vezes mais rápido do que o previsto, e a solar fotovoltaica, sete vezes. Já o cenário de menor ultrapassagem pressupõe remover e

armazenar de forma permanente cerca de 320 bilhões de toneladas de CO₂ ao longo do século, o que o PBL descreve como um esforço enorme.

O que isso muda para as empresas

O relatório trata de trajetórias globais e não quantifica danos a empresas específicas. O que segue é análise sobre como esse contexto tende a chegar à gestão corporativa, não estatística do relatório:

  • Riscos físicos: eventos extremos e mudanças na disponibilidade de água e energia afetam operações, infraestrutura e logística, e se propagam pela cadeia de suprimentos.
  • Riscos de transição: regulação, exigências de clientes e investidores e mudanças tecnológicas alteram custos e competitividade, sobretudo em setores intensivos em carbono.
  • Custo de capital e seguros: à medida que o risco climático é precificado, tendem a mudar as condições de crédito, investimento e cobertura de ativos expostos.

Um mundo a 2,8°C e uma transição acelerada são cenários muito diferentes, e ambos precisam constar da análise de riscos.

Da mensuração à redução

O inventário de emissões é a base da gestão climática, mas não é o destino. No Brasil, o Programa Brasileiro GHG Protocol, do FGVces, adapta o método internacional desde 2008 e estimula a publicação no Registro Público de Emissões. O número de empresas que publicam inventários passou de 145 em 2018 para 305 em 2021, segundo o FGVces, mesmo sem obrigação legal.

Um inventário bem feito mostra as fontes de emissão nos Escopos 1, 2 e 3 e permite priorizar. O erro comum é encerrar o trabalho aí. O diagnóstico só gera resultado quando alimenta quatro decisões: metas com ano-base, horizonte e escopo explícitos; um plano de descarbonização com responsáveis, prazos e orçamento; integração ao ciclo de investimentos; e monitoramento anual, com verificação independente quando possível. A credibilidade da meta depende da qualidade do dado, por isso fatores de emissão e premissas devem ser documentados.

Caminhos para a descarbonização

O PNUMA chama os governos a acelerar eletrificação, redes e armazenamento, eficiência energética, redução de metano e fim do desmatamento. Para empresas, isso se traduz em:

  • Eficiência energética: costuma ser a medida de menor custo e retorno mais rápido, e reduz demanda antes de qualquer troca de fonte.
  • Eletrificação e renováveis: substituem combustíveis fósseis em processos, frotas e aquecimento, com viabilidade que depende da tecnologia de cada processo.
  • Cadeia de valor: em muitas empresas o Escopo 3 concentra a maior parcela das emissões, o que exige engajamento de fornecedores, critérios de compra e dados primários.
  • Desmatamento: em cadeias de commodities agrícolas ou florestais, rastreabilidade e política de desmatamento zero fazem parte do controle de emissões e de risco reputacional.
  • Remoção de carbono: pertence ao tratamento de emissões residuais, depois de esgotadas as reduções. A escala necessária é incerta, e a remoção não deve ser tratada como atalho.

Mercados de carbono não substituem a redução

A precificação de carbono torna a emissão um custo e premia quem reduz. No Brasil, a Lei nº 15.042/2024 criou o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), em modelo de teto e comércio com implantação em fases. Operadores com emissões acima de 10 mil tCO₂e por ano devem reportá-las, e acima de 25 mil tCO₂e passam também a ter obrigações de conciliação; a produção agropecuária primária ficou fora.

O mercado voluntário funciona como complemento para emissões residuais, não como substituto da redução na fonte. Créditos só têm valor climático quando a integridade metodológica é verificável, e o mercado regulado pressupõe um teto que diminua com o tempo.

O contexto brasileiro

A NDC brasileira prevê reduzir as emissões líquidas entre 59% e 67% até 2035, em relação a 2005, o que equivale a um nível entre 850 milhões e 1,05 bilhão de tCO₂e. Organizações da sociedade civil avaliam que a meta não é compatível com 1,5°C e criticam o peso dado ao controle do desmatamento, principal fonte de emissões do país, frente à transição dos combustíveis fósseis.

Para as empresas, há duas leituras. A oportunidade está numa matriz elétrica com forte presença de renováveis, na bioenergia e no potencial de restauração. O desafio é que, com a eletricidade já relativamente limpa, o foco se desloca para combustíveis, processos industriais, logística e cadeia de valor, onde a redução é mais complexa.

Aplicação prática: do compromisso à rotina de gestão

  1. Medir com consistência: inventário com limites definidos, Escopo 3 priorizado por materialidade e fatores de emissão documentados.
  2. Definir metas com trajetória: ano-base, escopos cobertos, marcos intermediários e preferência por reduções absolutas. Os percentuais globais do PNUMA (18%, 45% e 69%) servem como referência de ambição, não como meta setorial automática.
  3. Planejar a execução: medidas com custo, redução estimada, prazo e responsável, ligadas ao orçamento de capital.
  4. Integrar à gestão de riscos: testar a estratégia em cenários de 2,8°C e de transição acelerada e considerar preço interno de carbono nas decisões de investimento.
  5. Monitorar e verificar: acompanhar indicadores anualmente, revisar o plano e submeter o inventário a verificação independente.

Conclusão

O Emissions Gap Report 2026 reforça que a distância entre compromisso e redução é uma questão de execução. Há trajetórias possíveis, e as renováveis são o melhor exemplo, mas elas exigem políticas e investimentos sustentados. Para as empresas, o ponto de partida está ao alcance: medir bem, definir metas com trajetória, financiar o plano e verificar os resultados. Uma meta só vale quando aparece, ano após ano, nos números do inventário.

E na sua organização: o plano de descarbonização já tem orçamento e responsáveis definidos, ou ainda está restrito ao inventário?

Em resumo

  • O Emissions Gap Report 2026 indica risco de aquecimento global de 2,8°C se políticas atuais forem mantidas, deslocando o foco das metas para a execução.
  • Inventário de emissões (Escopos 1, 2 e 3) é base essencial, mas precisa alimentar metas, plano com orçamento e monitoramento verificado.
  • Empresas devem integrar riscos físicos e de transição, priorizar eficiência, eletrificação e cadeia de valor, e não usar créditos como substituto da redução na fonte.

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Perguntas frequentes

O que significa o número de 2,8°C do Emissions Gap Report 2026?

É a projeção de aquecimento ao longo deste século se as políticas atualmente em vigor forem mantidas; não é uma previsão inevitável, mas reflete o cenário condicional do relatório.

Por que medir emissões não é suficiente?

Medir fornece diagnóstico, mas só gera resultados quando alimenta metas com trajetória, um plano com responsáveis e orçamento, integração ao investimento e monitoramento anual com verificação independente.

Como o SBCE afeta empresas no Brasil?

A Lei nº 15.042/2024 criou o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE) com implantação em fases e regras de reporte e conciliação para operadores acima de determinados limites de emissão.

Quando as empresas devem considerar o Escopo 3?

Quando o Escopo 3 representa parcela material das emissões da empresa; nesse caso é necessário engajamento de fornecedores, critérios de compra e coleta de dados primários para priorização.

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